Pergunto-me muitas vezes o porquê de estar na
minha pele. Não, não é o porquê de ser como sou, mas sim quem sou. Eu,
Cristiana, Portuguesa, Europeia. Cada vez me sinto mais uma privilegiada por ser
quem sou, por viver onde vivo. Mas com esse privilégio vem um sentimento de
culpa. Não o consigo explicar, mas é algo que me atinge sempre que oiço nas
notícias que mais 80 pessoas morreram num ataque bombista. Que raparigas estão
a ser vendidas a terroristas para serem escravas sexuais. Que famílias não
vivem em paz, pensando se serão as próximas vítimas, ou se os seus filhos serão
as próximas vítimas. É nesses momentos que me sinto culpada. Culpada por me
preocupar tanto com o que vou vestir na minha próxima saída, com o que vou
comer no restaurante. Culpada por a minha única preocupação no momento ser
precisamente viver num sítio tão pacato que dou por mim sem nada para fazer.
Porque tive eu direito a esta vida, em detrimento das pessoas que estão a
sofrer? Foi pura sorte? Porque não foi certamente por merecer. Porque tal como
eu não “mereço” esta vida, também aquelas vítimas não merecem o que lhes
acontece.
Eu sei que na verdade não terei de me sentir
culpada pela vida que tenho, o destino assim o quis. Mas este sentimento de
impotência deixa-me no desassossego. Saber que não posso fazer nada a não ser,
talvez, rezar pela vida daquelas pessoas que tanto sofrem. Mas por cada oração
proferida saem mais duas notícias com mortos e sofrimento. E o sentimento de
impotência volta. A única opção será lidar com este sentimento. E saber que não
é minha culpa que alguns tenham um destino mais amargo que os outros. Mas então
pergunto-me: de quem será?



