(Des)Culpa

17:40

Pergunto-me muitas vezes o porquê de estar na minha pele. Não, não é o porquê de ser como sou, mas sim quem sou. Eu, Cristiana, Portuguesa, Europeia. Cada vez me sinto mais uma privilegiada por ser quem sou, por viver onde vivo. Mas com esse privilégio vem um sentimento de culpa. Não o consigo explicar, mas é algo que me atinge sempre que oiço nas notícias que mais 80 pessoas morreram num ataque bombista. Que raparigas estão a ser vendidas a terroristas para serem escravas sexuais. Que famílias não vivem em paz, pensando se serão as próximas vítimas, ou se os seus filhos serão as próximas vítimas. É nesses momentos que me sinto culpada. Culpada por me preocupar tanto com o que vou vestir na minha próxima saída, com o que vou comer no restaurante. Culpada por a minha única preocupação no momento ser precisamente viver num sítio tão pacato que dou por mim sem nada para fazer. Porque tive eu direito a esta vida, em detrimento das pessoas que estão a sofrer? Foi pura sorte? Porque não foi certamente por merecer. Porque tal como eu não “mereço” esta vida, também aquelas vítimas não merecem o que lhes acontece.

Eu sei que na verdade não terei de me sentir culpada pela vida que tenho, o destino assim o quis. Mas este sentimento de impotência deixa-me no desassossego. Saber que não posso fazer nada a não ser, talvez, rezar pela vida daquelas pessoas que tanto sofrem. Mas por cada oração proferida saem mais duas notícias com mortos e sofrimento. E o sentimento de impotência volta. A única opção será lidar com este sentimento. E saber que não é minha culpa que alguns tenham um destino mais amargo que os outros. Mas então pergunto-me: de quem será?

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